Nos últimos tempos, tem sido notório o défice de comando que o Executivo vem imprimindo à governação.
Foi assim naquela exposição pública de autoflagelação, precipitada por nove meses de denúncias e provas reunidas pelos media, destinada a justificar o indesculpável, ante a inação comprometedora no combate ao síndrome ucraniano do SEF.
O mesmo embaraço e reatividade se observaram na surpresa e condenação oficiais exibidas perante o massacre do ativo cinegético de uma herdade ribatejana, sacrificado pela fúria de um punhado de selvagens bípedes. Escandalizado, o ambientalista executivo anunciou, lesto, uma inspeção imediata, conduzida pela repartição competente, assim arrancada ao seu proverbial torpor. Os horrores aprisionados na Torre Bela, que as redes sociais escancararam, provam que nenhum controlo, nenhuma prevenção ou dissuasão se pode esperar de um governo assim reacionário.
Além das mensagens desta quadra, por onde o Estado esbanjou lágrimas, e remorso, a família de Ihor Homeniuk recebeu, dos contribuintes portugueses, as menos lamechas, embora sentidas e devidas, compensações indemnizatórias. No entanto, os que estão atentos ao tratamento reservado às vítimas da máquina de tortura institucional ao serviço das diferentes expressões de soberania, estranharão a generosidade da Provedora de Justiça e o seguidismo governamental. Não é impunemente que se toma conhecimento, recentemente, das compensações aprovadas aos familiares dos comandos tombados em serviço, agora fixadas num montante 75% abaixo do valor compensado aos ucranianos e passados mais de 4 anos dos acontecimentos fatídicos.
E o que é que esta história tem que ver com os desvarios ribatejanos da bela torre, para além de exibir a mesma passividade e inabilidade do Executivo na condução proativa dos assuntos de Estado?
Arrisco, explicando, mais uma analogia: a proximidade, a familiaridade, a afinidade tendem a ser correspondidas com desprezo e insensibilidade, pretensamente niveladores dos interesses em presença, numa espécie de excesso de zelo pacóvio que discrimina, negativamente, para evitar hipotéticas acusações de favorecimento. Ou, por outro lado, ou mesmo cumulativamente, nestas disputas entre graus de vizinhança e distanciamento despoleta-se o impulso para uma exacerbada generosidade farisaica, esponja contra a má consciência. Entre a imensa fauna doméstica abatida aos milhões, diariamente e sem escrúpulo moral, ambiental ou outro, para forrar bandulhos e carteiras e o abate de um espécime selvagem, preconceituosamente mais valorizado porque desprotegido, esfole-se o cabrita!