O bom senso, como qualquer outra categoria comportamental intrinsecamente má, tem laivos de virtude. Nada é puramente abjeto. Per se ou reflexamente pode beneficiar de atenuantes.
O bom senso é regaço saudoso e o refúgio para tibiezas, contemporização, complacência, cobardia, indecisão, omissão, desobediência (a outrem ou, pior, aos nossos imperativos de consciência). Mesmo que nos permita, no fim, o luxo de beneficiar de um juízo desculpabilizador...
Quando o resultado do exercício do bom senso não é o pretendido, sobra o ressentimento e o dever fica incumprido. E quando o bom senso redunda num resultado justo, é mais do acaso desse resultado que depende o julgamento que da bondade genuína dessa decisão.
Bom senso é o caminho meão por onde se escapa ao compromisso e ao confronto, a terra de conquista para a desfaçatez e a provocação e toda a sorte de oportunismos, obscurantismos e insídias que põem à prova a verticalidade e coragem. O bom senso é bandeira maior dos timoratos.
O bom senso é devedor do instinto de autopreservação e teve o seu papel nas escolhas que nos transportaram até aos dias de hoje. Mas o bom senso também é um esbanjador da energia criativa, da ousadia e do risco, do impulso para o desconhecido, para a inovação, a conquista de horizontes rasgados e livres dos véus constritores da prudência. O bom senso não habita a casa grande da liberdade, nem o peito afoito e inconformado dos heróis.